domingo, 1 de março de 2009

MAIS UMA VITÓRIA...

Um problema crónico de origem genética destinou Jorge Silva a uma vida com muitos problemas de saúde. Os primeiros exames foram feitos na Alemanha, mas a barreira linguística acabou por adiar o nome da doença, que só viria a conhecer aos 22 anos quando foi internado pela primeira vez: fibrose quística.
Pulmões, pâncreas e fígado são os órgãos mais afectados por esta doença, a ponto de o Jorge ter infecções pulmonares sistemáticas e não conseguir estar mais de oito dias sem tomar antibióticos. O excesso de medicamentos trouxe-lhe mais uma complicação: insuficiência renal. «É muito raro estar associada à fibrose quística», esclarece Elisabete, mulher de Jorge. Há sete anos, começou a fazer diálise. E a partir daqui tudo ficou mais difícil. A hipótese transplante, primeiro de rim, depois de pulmões, começou a ser equacionada.
No Hospital de S. João, no Porto, os médicos deram meses de vida a Jorge. Mas deram-lhe também uma esperança: fazer um duplo transplante na Corunha. Elisabete e Jorge agarraram a oportunidade. Quariam fugir à inevitabilidade de uma doença que tem uma esperança média de vida de 30 anos.
Na altura não sabiam que esta operação nunca tinha sido feita. «Pesquisei na net e não encontrei nada. Só sabia que em Espanha nunca tinham feito», conta Elisabete. «Se já se fez isto, não há registo», acrescenta Jorge.
Veja aqui a reportagem vídeo.
Chegaram à Corunha no dia 28 de Novembro de 2006. Jorge só seria operado a 3 de Outubro de 2008. A espera foi terrível para os dois. Tanto mais que lhes tinham falado em seis meses.
«Foi uma alteração muito grande na minha vida. Acompanhei-o durante cinco a seis semanas e depois tive de regressar ao trabalho e acompanhar o nosso filho. A minha vida passou a ser Portugal/Corunha. Nos primeiros nove meses ía à sexta-feira à noite para a Corunha e regressava ao domingo à noite. Depois tive de abrandar. Passei a ir de 15 em 15 dias e nas férias». Elisabete emociona-se. «É muito doloroso». Recomeça: «Acho que os primeiros meses consegui viver isto com algum cansaço, mas com relativa leveza... mas depois...».
Mais do que a distância da família e a ansiedade da espera, o mais doloroso para Jorge foi a reanimação, os 52 dias que passou nos cuidados intensivos, entubado, sem falar e sem conseguir dormir. São momentos que prefere deixar para trás. Porque agora é tempo de olhar para o futuro. Jorge Silva fez o primeiro duplo transplante do mundo e tem razões para se sentir feliz.
«Sobrevivi e rejuvenesci»
«Fui o exemplo de que nada é impossível. E aos olhos de outras pessoas com problemas similares sou um símbolo de esperança. Espero que vejam em mim uma luz, uma porta aberta», diz Jorge. Sente-se um sobrevivente? «Um bocado. Após dois anos de luta, depois de tudo o que fiz a família passar, as montanhas que cruzei... sinto que sobrevivi e que rejuvenesci».
Nesta fase, existe risco de infecções porque Jorge está a tomar uma grande dose de imunossupressores para evitar uma rejeição dos órgãos. Daí utilizar uma máscara. Mas depois quer ter uma vida normal. Agora tem três rins, dois que não funcionam e um transplantado. E tem dois pulmões novos com o código genético do dador, o que os defenderá da fibrose quística. É certo que os órgãos transplantados duram em média dez anos e depois o processo terá de ser repetido, mas não é tempo de pensar nisso.
Com 38 anos, e uma grande história para contar, Jorge quer passar os próximos meses a estabilizar e a recuperar o tempo perdido com a família. No primeiro ano terá consultas sistemáticas no S. João e muitas idas à Corunha, mas depois gostava de voltar a trabalhar. Para se sentir útil à sociedade, porque não é velho, e para ajudar a família. Porque a reforma por invalidez de 280 euros não chega sequer para pagar as desinfecções diárias e obrigatórias da sua casa.

4 comentários:

Jorge disse...

Olá Célia,
queria deixar aqui um grande obrigado por te lembrares de mim neste teu blog. Espero que este meu relato tenha servido para dar ânimo a todos aqueles que esperam por uma segunda oportunidade de viver.
Para e para o Tozé ti um grande abraço e até breve...
Jorge

Sandra Campos disse...

Olá,

Espero que esteja tudo bem contigo.
Como sempre venho visitar as novidades e convidar-te para veres o meu novo blog:
http://transplantes-pulmonares.blogspot.com

Gostava muito que colocases o meu link no teu blog.

Beijinho,
Sandra Campos
sandraalvescampos@gmail.com

Sandra Campos disse...

olá Célia,

Aqui vai o link para o meu novo blog
http://transplantes-pulmonares.blogspot.com

Obrigada,
Sandra Campos

sandraalvescampos@gmail.com

Patrícia Vilaça disse...

Olá, sei que não me conheces mas lendo a tua história fiquei comovida. E gostaria muito de falar contigo, Chamo-te Patrícia e tenho apenas 14 anos, e vivo em vila nova de famalicão, o meu pai tem enfisema pulmonar e vai esta sexta feira à curunha a uma consulta, porque também precisa de um transplante, eu gostava de te colocar algumas questões que me deixam muito receosa com isto tudo! Poderias - me dar o teu e-mail?

E muitos parabéns és uma vencedora.